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A Temporada Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Romance
Escrito por: Brunno
Brunno

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Seg, 08 de Março de 2010 22:05

Ficaram olhando o bosque por um tempo. Conservaram mais coisas e Claudio estava esperando o momento em que ela iria terminar a historia sobre a viagem. Lara deixou o copo sobre o parapeito da armação de madeira e esticou o corpo.

Marcos, então, apareceu na porta. Estava sem camisa e parecia com sono. Disse com voz firme que queria Lara na cama. Era tarde pra ficar conversando do lado de fora. Lara ouviu sem dizer nada. Baixou os olhos e terminou o uísque.

__Amanhã nós conversamos. – e foi se encaminhando para onde estava o marido.

Ela passou por ele e Marcos ficou na porta olhando Claudio recostado com o cotovelo no parapeito.

__Desculpe, doutor. Eu não queria parecer mal educado, mas estou com sono, sabe?

__Claro. Pra falar a verdade eu também.

Fechou a casa e foi pra cama. Dormiu como uma pedra.

 

 

TERCEIRO DIA

Onde se sabe mais da vida de Claudio se conhece melhor a Marcos

 

Campos do Jordão é uma bela cidade montanhesa cujo clima, devidamente frio convida à gula e outros pecados da carne. Naquele momento um filete de liquido doce viscoso, como a taça da boa sorte, descia pelos lábios de Lara e caía-lhe uma parte no queixo.

Ela riu, fechou a boca rapidamente e levou a mão abaixo do queixo pra amenizar a sujeira. O gosto de morangos em calda de chocolate parece hipnotizar as mulheres. Helena estava mais recuperada depois de um boa noite de sono e voltara a ser a mesma de sempre. Recatada e comedida.

Andrea acompanhava a amiga num espeto de morangos com chocolate. Estavam as mulheres sentadas numa das mesas quadradas de uma loja de doces na rua lateral a Djalma Forjaz. A rua vem da praça onde há o palco para as apresentações do festival de inverno.

Logo ao lado do hotel Estoril a loja sempre tinha movimento, desde o início daquela prazerosa manhã. Haviam saído cedo para passeios e, como sempre em Campos, compras.

Os homens deliciavam-se com um grande prazer masculino: carros. Havia na cidade, em seu maior movimento, estandes da Audi, Mercedez, Toyota e outras grandes montadoras expondo suas obras de arte.

O tradicional estande da Audi fica na avenida de chegada ao centro da cidade. Grande, climatizado, cravejado de modelos, as mais lindas, é praticamente o centro de bonito durante o dia. Competia com este, na calçada oposto o estande da Jaguar. Novidade na cidade, mas causando furor com os modelos X-Type.

Marcos olhada interessadamente um modelo Audi enquanto Claudio e Carlos observavam uma breve palestra sobre o carro era produzido. Comentários de homens sobre carros são sempre os mesmos: que potência! Meu Deus, zero a cem em dois segundos! Olha só o jogo de rodas! Seis air-bags!

Uma das jovens e solícitas modelos, obviamente muito bem pagas para essa solicitude toda, veio onde estava Marcos e sentou-se ao lado dele no belo carro preto cheio de enfeites prata.

Carlos deu um tapa leve no braço de Claudio e apontou sorrindo maliciosamente para onde estavam. Foram até o carro e Marcos perguntava à moça as especificações do carro. Ela, devidamente treinada, parecia uma das engenheiras automobilísticas responsáveis pelo projeto, sabia tudo.

Velocidade, peso, capacidade do tanque, consumo, dirigibilidade, tipo de câmbio, embreagem elétrica, direção inteligente, controle de curso e piloto automático. Tudo. Depois de um tempo, com os dois mais velhos ao lado do carro ouvindo a jovem, Carlos notou que Marcos mudara o volume da conversa.

Ficou ali mais um tempo e depois de meia hora veio ao encontro dos dois. Disse que a bela, uma ruiva de olhos cor-de-mel, chamava-se Natália e melhor, cobrava só quinhentos reais.

Claudio arregalou os olhos e virou-se para onde estava a moça, entretida com outro cliente. Carlos desatou a rir. Marcos falara a sério. Estava realmente disposto a sair com a jovem.

__Ficou doido, sujeito! – protestou Claudio, com cautela – Acha que mesmo que é prostituta?

__Nem todas são, mas esse ai é sim senhor! Eu sabia que conhecia a piranha de algum lugar. Trabalha numa daquelas casas famosas de São Paulo. Eu sempre pensei duas vezes antes de investir nisso, mas sabe como é, não se pode comer arroz e frango todo dia! – defendia-se.

Carlos não disse nada, se era a opinião dele, tudo bem. Claudio esforçou-se para não indignar-se e dar a entender o que realmente pensava, que a mulher era um avião mil vezes melhor que a tal ruiva, que era linda, tudo bem, mas que não havia como trair Lara.

__Olha, doutor, eu sei o que está pensando. Mas minha mulher não é essas coisas não! Ela se faz de poderosa e agressiva, mas na cama é uma morta! Além do que ela jamais ficaria sabendo.

Conversavam agora pela rua. Caminhavam carregando algumas sacolas de lojas e estavam a caminho de onde as mulheres pediam mais um petisco doce, às nove e trinta da manhã.

__Eu não o condeno, Marcos. Pode fazer o que quiser. É que eu mesmo não me lembro da última vez que recorri a uma prostituta, sabe. Acho que me parece anti-natural.

__Pra mim é corriqueiro. Na empresa onde trabalho sempre tem uns congressos internacionais ou nacionais mesmo, e sempre vem gente de fora, do país sede da empresa, a Suíça. Não tem nem como pensar em trazer aqueles homens pra cá sem ter uma bala na agulha, entende?

__Vem cá – interrompeu Carlos – Isso é sempre assim? Porque todo mundo que trabalha em empresa sempre fala que quando tem aquelas reuniões de confraternização, rola uma putaria generalizada!

Claudio sabia um pouco disso. Era advogado de algumas empresas bem grandes e participava de alguns encontros entre clientes. Em determinados casos havia sempre, quase sempre, uns e outros que pediam para visitar as casas de massagem de São Paulo, ou outro lugar parecido.

Marcos foi imperativo ao afirmar que sim, sempre iam para essas festas. Houve uma, disse, que ficara tão bêbado e acordara numa cama com duas mulheres que seu colega de trabalho teve um trabalho enorme para livrar-lhe a cara.

__Seu chefe estava junto? – perguntou Claudio.

__Estava, é claro. Meu amigo teve que me livrar a cara com a Lara! – desatou a rir sozinho – Acreditam que a besta caiu na história de que nosso carro havia quebrado?

__Ah, qual é? – protestou Carlos – Não. Nessa eu não caio. A Lara não é tão tonta assim.

Claudio apenas observava.

__Mas você não me conhece, amigo. Eu quando faço, faço bem feito! Chamamos um guincho e demos um troco pro cara ficar quieto. Entramos no condomínio onde moro de guincho! Tiramos uma peça qualquer do motor e deixei o carro na garagem uma semana! - rindo – Ela não desconfiou de nada!

Claudio e Carlos trocaram um olhar desconfiado, mas decidiram não estender a história, afinal, quanto mais corda se dá para o louco mais ele se enforca.

As meninas conversavam distraidamente quando os homens chegaram. Sentaram-se em casais, com Claudio ao lado de Andrea. Ela deu um sorriso convidativo e ele preferiu olhar o tampo da mesa.

O mais velho não havia tomado café da manhã. Acompanhou as meninas em sua ânsia de sair para as ruas logo cedo, então, pediu um desjejum farto ali mesmo, na loja de doces que também tinha algum sal lá dentro, quem sabe no fundo do balcão de açúcar.

Planejavam as lojas. Andrea queria comprar um casaco de couro numa das casas conhecidas logo no início da cidade e Lara disse que gostaria de um par de botas de cano longo. Helena apenas acompanharia as duas porque não queria nada em especial. O celular de Carlos tocou.

__Dr. Carlos. Sim. Pode transferir. – depois de algum tempo – Olá Dr. Antunes, como vai? Ótimo, por que precisa de mim? Existe compatibilidade? Certo. Entendo. Façamos o seguinte: ligue para a família e diga que vocês mesmo vão conduzir o pré-operatório e que depois de feito o depósito, eu opero, não antes.

Todos se mantiveram em silêncio. Carlos desligou e imaginou que sua atitude precisava de alguma explicação, mas ele não a daria, se não fosse o fato de Helena, de olhos brilhantes, querer saber quem estava falando, ela mesma não conhecia o tal Dr. Antunes.

__É aquele colega de Barcelona. Um senhor espanhol tem um problema que só se resolve com cirurgia e a família quer que eu opere. Não vou me deslocar até a Espanha sem um depósito na conta – disse com a naturalidade de quem está acostumado a situação.

__Acho certo. – disse Claudio – Se me solicitassem uma consulta jurídica via telefone eu também não daria sem um depósito em conta.

__Como vocês são maus! – emendou Marcos – Carlos e se o homem estiver morrendo?

__Se estiver morrendo estará num hospital espanhol, que, garanto, é muito melhor que muitos dos nossos hospitais. Além disso, se a família está exigindo minha presença, já que o moribundo não pode ser transportado, terá de pagar por isso! Eu não trabalho de graça – arqueou uma sobrancelha pra dar ênfase a resposta.

__Está certíssimo, querido. É isso mesmo! Um cirurgião como você não tem tempo de sair assim, a qualquer hora para fazer uma simples consulta. Eles que tomem conta de tudo lá e quando você chegar vai direto para o centro cirúrgico.

Carlos fez sinal de positivo. Claudio degustava um pão com manteiga aquecido na chapa e tomava seu café.

__E para quando é a viagem? – perguntou Andrea tirando da bolsa uma agenda eletrônica.

__Ah, sim, anote. Se eles vão cuidar da compatibilidade do doador e preparar a SC para daqui uma semana, nós ainda teremos um dia de viagem e se quisermos voltar logo é melhor agendar a passagem para chegarmos no início da noite. Eu não vou chegar e ir direto para a cirurgia, vamos reservar o Merriots em Barcelona e partimos um dia antes da data. Se não houver atrasos.

Helena agitou-se na cadeira. Seria bom voltar a Europa, que não via há alguns anos.

__É melhor Andrea e eu irmos sozinhos – disse Carlos imperativo – Não há necessidade de sair da clínica apenas para uma viagem de dois dias, três no máximo, Helena. Além disso alguém tem sempre que ficar na clínica quando faço essas viagens longas, você sabe disso.

O sorriso no rosto da mulher esmaeceu violentamente.

__Ai, Carlos, qual é o problema? – quis saber Lara.

__Não se intrometa. – disse Marcos em baixo tom de voz, mas audível a todos.

__São dois ou três dias, sua clínica não vai ficar destruída nesse tempo. Leva ela com você. – era quase uma solicitação formal, em três vias, lavrada em cartório em com firma reconhecida.

__Lara! – Marcos elevou o tom de voz e a pegou novamente pelo braço.

Claudio pôde ver o momento em que o rosto da morena ficava vermelho.

__Não tem problema, Lara! – disse uma sorridente Helena – Carlos Alberto tem razão, a clínica não pode mesmo ficar sozinha. Nossos pacientes sempre nos querem por perto e além do mais eu agendei uma troca total da decoração da sala de espera para a semana que vem, não posso mesmo viajar.

__Está me machucando. – disse Lara olhando firmemente para o marido, os olhos tesos nos dele, o músculo dos lados da mandíbula rígidos como pedra.

Marcos ainda segurou mais algum tempo antes de aliviar a pressão. A bela tirou óculos escuros de dentro da bolsa e colocou no rosto. Tomou um gole do café que havia pedido e pigarreou. Pediu licença e foi até o banheiro do local, um dos poucos com toalete próprio.

Claudio tomava seu café e mantinha o rosto impassível ao que acontecera, não daria sua opinião.

Andrea terminou de anotar as coisas em sua agenda eletrônica indiferente à discussão. Era uma profissional sendo solicitada para um trabalho. Se a irmã não podia ir, ela não tinha nada com isso.

Carlos disse que ligaria para o pessoal da Espanha e pediria para reservarem um hotel mais perto do centro, disse que ficaria mais dois dias depois da cirurgia, mesmo porque poderia ser até bom, o velho podia passar mal, e que disse mais, Helena iria com ele afinal.

De sua posição e da maneira mais discreta que pôde Claudio reparou a reação de Andrea. A linda loura olhou por cima dos óculos de sol para a irmã, e não fora um olhar amistoso, de quem apreciaria a companhia.

Marcos estava de cara fechada e Carlos havia tomado uma decisão que não seria revogada, por nenhuma de suas duas acompanhantes. Helena reagiu como um cão quando o dono senta no chão pra lhe fazer carinho.

Marcos pediu licença e saiu da mesa, sem dizer para onde ia, mas em direção oposta à loja. Carlos virou-se friamente para Claudio, mais mudo que um cemitério.

__Helena por que não leva Andrea pra ver como está Lara? – sugeriu Carlos e nenhuma das duas iria discutir a ordem do magno.

Quando as duas saíram, ficaram os homens na mesa.

__Sabe por que eu fiz isso, não é? – perguntou a Claudio, dizendo em seguida – Para que a defesa de Lara não fosse em vão. De qualquer modo, sabe o que vai acontecer depois? Eu digo que Helena não vai, na véspera da viagem e pronto. Acho que você sabe bem porque não é, meu amigo?

Era a primeira vez que tinham a conversa rasgada. Claudio não queria ser agressivo ou mesmo intrometido, mas já havia notado há tempos o desejo inconteste dele pela cunhada, reforçado pelo comentário de Lara na noite passada.

__Olha, cara, você faz o que achar melhor. Só não vá fazer a merda que eu fiz. Não rebaixe sua mulher a um nível de submissão. Eu me arrependo amargamente. – espremeu os lábios e olhou para o amigo diretamente.

Carlos sabia do que ele falava. Empurrou o ar para fora dos pulmões com força, aquela não estava sendo manhã agradável. Mas tudo ficou mais leve quando as mulheres voltaram.

Claudio achou que a primeira coisa que Lara faria seria perguntar do marido, mas ela estava sorridente e sem os óculos de sol. Tinha os olhos inchados mesmo depois de todo o colírio que Helena lhe fornecera, afinal, não saía sem isso na bolsa.

A médica estava ansiosa pelo dia da viagem e de trás de seus óculos de sol, Claudio olhou para ela como se visse um veado na floresta e soubesse que a mira do caçador lhe fazia linha desobstruída.

Lara sentou-se ao lado do mais velho deixando o lugar de Andrea ao lado de Helena. Enquanto a família conversava sobre os detalhes da viagem, a beldade de cabelos negros e lisos virou-se discretamente para o austero senhor ao seu lado.

__Não precisa me dizer. Ele deve estar bebendo em algum lugar e acho isso ótimo.

Claudio não respondeu. Levanto-se e foi para a calçada. Acendeu um cigarro e algum tempo depois voltou a mesa.

__Gente, eu não estou me sentindo muito bem. Façam seu passeio pela cidade. Essa leve indisposição não deve me derrubar, mas acho melhor eu ir pra casa descansar.

Sequer deu tempo de resposta. Caminhou até onde havia deixado o carro e foi para casa. Parecia cansado da situação.

Marcos foi encontrado sentado muito seriamente numa das mesas da Baden Baden, bebendo sozinho uma cerveja de mais de nove por cento de álcool às dez horas da manhã. Tinha os lados da boca caídos e os óculos lhe escondiam os olhos.

Os três saíram para fazer compras e Lara estancou diante do marido. Ele tinha os pés sobre uma cadeira. Voltou a posição normal, mas empurrou a cadeira para Lara sentar, com o pé. Ela aproveitou o fato de que não havia gente por perto e pegou a cadeira com força jogando-a de lado.

Marcos retesou o corpo sem parecer ameaçador. Mostrou-lhe as palmas das mãos como sinal de paz e puxou outra cadeira, dessa vez do jeito devido. Lara não sentou. Aproximou-se dele lentamente e pousou a mão no encosto da cadeira em que ele estava e, mantendo-se em pé, tinha numa posição de superioridade.

__A próxima vez que fizer isso... – começou.

__Me desculpe, ta!

__Cala a boca. Eu estou falando – ele se calou. A próxima vez que fizer isso, eu desapareço da sua vida. Sabe o que eu posso fazer, não é? – ele não respondeu, em vez disso engoliu em seco.

__Responda. Você sabe o que eu posso fazer... – insistiu ela com dentes rangendo.

__Sim, eu sei. – Marcos tinha as mãos pousadas na mesa como um aluno admoestado pela professora.

__De todos os prazeres que lhe dei, e não tenha dúvida, senhor, foram para mim alguns deles, deploráveis, que eu o deixo na mais completa escuridão pessoal – trazia um sorriso maligno no rosto, como se aquilo, sim, lhe desse prazer.

Marcos não falou nada. Engoliu a humilhação que sentia porque sabia que era melhor isso do que enfrentá-la. E o mais importante, quando não estava nos seus ataques de incontrolável libido, coisa que não acontecia, como Lara afirmara a Claudio, há um bom tempo, não se permitia falar sobre o fato. Não admitia que seus usos e costumes funestos, aos quais pedia para a mulher acompanhá-lo, fossem discutidos mesmo estando somente os dois juntos.

Queria dizer que na maioria das vezes ela sentia ainda mais prazer do que ele, mas isso levantaria a discussão. Além do que, Lara parecia disposta a esquecer o ocorrido e dar continuidade à estadia que até agora, estava sendo agradável.

Como se nada tivesse acontecido, ela pediu ao garçom um copo de chopp e tomou a mão do marido. Marcos reagiu como um menino que encontra um brinquedo depois de tê-lo perdido. Aninhou-se no ombro de Lara e esta lhe afagou a face enquanto distraía-se com a leitura de um guia turístico da cidade.



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Seg, 08 de Março de 2010

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