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Eu, caçadora de mim? --- 2º capítulo: Mestre Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Ficção
Escrito por: Adalta
Adalta

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Seg, 08 de Março de 2010 17:50

919 d. C. – Mestre

Capítulo 2

 

--

 

Eu andava apreensiva em um corredor escuro. Meus passos eram silenciosos e incertos. À frente, eu vislumbrava uma porta entreaberta revelando um ambiente iluminado. Eu sabia que devia aproximar-me, mas algo me indicava não ser seguro.

 

Meus olhos procuraram outra saída, em vão. Aquela porta era o único objeto além de mim e das paredes sólidas que me cercavam.

 

Decidida, segui em direção à fraca luz que era capaz de ver e inspirei o ar na tentativa de controlar minha ansiedade. Minha mão esquerda pousou na madeira envelhecida daquela porta e eu a empurrei vendo-a abrir-se com pouco esforço.

 

Minha boca tornou-se imediatamente seca diante do terror que me consumiu. A cena à minha frente era tenebrosa! As paredes estavam tingidas com sangue fresco e o cheiro fétido da morte irrompeu minhas narinas fazendo-as arder.

 

O ambiente não estava vazio. No centro dele havia uma poltrona tão velha quanto a porta... Ocupada por um homem com longos cabelos e barba, tão brancos quanto flocos de neve, mas manchados com o tom vermelho intenso do sangue. Seus olhos cerrados, sua pele pálida e a postura inalterável indicavam estar morto.

 

Diante daquele homem, uma criança estava sentada no chão frio de madeira. Ela balançava seu corpo em um ritmo lento, notavelmente perturbado, para a frente e para trás. Eu me aproximei daquela menina, embora receosa, e fitei seus olhos de um azul intenso quando me encararam.

 

Os orbes opacos, os lábios sujos com sangue seco, as lágrimas que dançavam sobre sua face, deixaram-me atônita. Eu não sabia o que fazer...

 

Então, de forma rápida demais para eu acompanhar, aquela menina pulou em meu corpo derrubando-me desajeitadamente sobre o chão. Sua face, antes inexpressível, tornou-se sádica e suas palavras soaram ácidas:

 

- Você o matou!

 

Acordei sobressaltada. Meu coração disparado e a respiração descompassada deixaram-me aflita novamente.

 

Aquele pesadelo repetia-se todas as noites, desde que minha vida foi protegida por “Ele”. Eu tentava inutilmente evitar o terror noturno afirmando a mim mesma que devia optar em não abrir a porta quando adormecesse. Mas, minhas tentativas sucumbiam deixando-me à mercê da imagem fúnebre de meu Mestre.

 

Sim, “Aquele” que salvara minha vida era o mesmo que estava sentado inerte em meu pesadelo... E a garota entretida e suja em sangue era o reflexo de meu monstro interior.

 

Somente um ano havia se passado desde a morte de meus pais. Eu estava com 10 primaveras, mas sentia que minha maturidade transcendia a de uma criança normal. A verdade é que nunca fui realmente “normal”. Uma vampira sem a experiência de convívio com outros de sua espécie além de seus genitores. Uma garota que nunca brincara com outra criança de sua idade.

 

Nada poderia ser inteiramente “normal” em minha vida... E isso me entristecia.

 

Ao menos, eu tinha meu Mestre como presença reconfortante...

 

Há um ano morávamos juntos. “Ele” nunca me abandonou desde a fatídica noite. Eu temia que “Ele” se decepcionasse ao reconhecer quem sou verdadeiramente, mas estava enganada. “Ele” era tão diferente quanto eu...

 

Após a noite com aqueles humanos eu dormi durante dias seguidos. “Ele” cuidou de meus ferimentos enquanto eu me recuperava e relatou suas dificuldades em baixar minha temperatura febril. Estava preocupado com meu estado, especialmente com meu sono perturbado.

 

Eu lembro do pânico que me envolveu quando finalmente despertei. Eu estava só, deitada sobre uma cama confortável e rústica. Cobertores pesados protegiam-me do frio daquele inverno, mas o calor que provinha deles não foi suficiente para me manter presa àquela cama.

 

Rapidamente, eu me levantei ignorando o calafrio que subiu por minha coluna quando meus pés descalços encontraram o chão gelado. Eu fiquei inerte, por um instante, antes de correr porta afora em desespero sem saber exatamente para onde ir.

 

- Pretende se matar no rigoroso inverno? – Aquela voz soou às minhas costas. Um tom sério lhe envolvia e imediatamente eu parei meus passos ao reconhecê-la.

 

- Não precisa temer, criança. – “Ele” continuou de forma serena. Eu me senti segura com estas palavras e voltei-me em direção “Àquele” que me salvara.

 

Meus lábios entreabriram-se em total descrença. “Ele” era um senhor de aparência dócil, com olhos profundos e negros que faziam perder-me como em um labirinto. Sua face era coberta por uma barba longa e branca demais para sua idade... Seus cabelos também compridos tinham a mesma ausência de cor.

 

Eu o encarei muda. As palavras haviam se perdido em minha garganta. “Aquele” senhor era dono da voz que me salvou? Autor da morte daqueles humanos?

 

Sentado em uma poltrona revestida de couro envelhecido, “Ele” parecia definitivamente inofensivo.

 

Um sorriso riscou-se nos lábios finos “Dele” em total divertimento com minha consternação. Eu certamente fitaria o chão diante do constrangimento que sentia, mas aqueles orbes negros agiam como ímãs aos meus próprios olhos. Eu era incapaz de deixar de fitá-los.

 

- Aproxime-se. – Ele disse com a voz aveludada e rouca. Uma verdadeira ordem aos meus pés que não ousavam desobedecer.

 

Lentamente, eu segui para o seu lado vendo-o se inclinar em minha direção. Seu rosto aproximou-se do meu de tal forma que senti sua barba acariciar minha face. Algo em meu interior reagiu tão intensamente que recuei todos os passos que antes me levaram a “Ele”. Não parei até que a parede da sala me impediu de manter maior distância.

 

Um calor tomou-me por completo e minhas mãos passaram a suar. Eu respirava com dificuldade, sentindo em minha garganta algo que se comparava a espinhos. Eu era perfurada por dentro e meu estômago se contraía a cada vez que minha garganta doía... Eu nunca sentira nada semelhante.

 

- Interessante... Você está com sede, criança.

 

... Sede... Sede... Sede... Sede...

 

A palavra ecoava em minha mente como o badalar de um sino. Uma simples palavra com um sentido tão grandioso a um vampiro.

 

Uma simples palavra que significava apenas uma coisa: morte.

 

Minhas pernas fraquejaram quando pensei rapidamente no que precisava fazer para me livrar daquela dor insuportável em minha garganta... Do calor que me consumia como um veneno! Eu precisava matar.

 

Deixei meu corpo escorregar ao chão. Não podia lidar com isso! Eu não tive a educação necessária para lidar com minha própria... sede. Meus pais o faziam por mim quando caçavam e me deixavam beber de seu sangue, protegendo-me da necessidade de matar para me alimentar.

 

Eles diziam que eu era muito jovem para aprender a reconhecer “quem merecia morrer”. Desde a mais tenra idade, contavam-me que mesmo os vampiros deviam ser éticos ao se alimentarem, contribuindo para que a sociedade fosse mais justa. Assim, meus pais nunca mataram aleatoriamente; eles escolhiam suas vítimas como verdadeiros juizes da morte.

 

Uma mão interrompeu meus devaneios ao pousar em minha face suada e secá-la com um lenço vermelho. Eu não sabia se esta era sua cor real ou se minha mente brincava comigo. Assustei-me com uma contração dolorosa de meu estômago que reclamava por sangue e afastei a mão de meu rosto com um tapa brusco.

 

Eu não podia deixar meu monstro me dominar! Não com “Ele”!

Eu não podia feri-lo... Meus pais não aceitariam, porque “Ele” não merecia morrer...

Eu precisava encontrar alguém... Uma vítima.

 

- Beba. – A voz masculina e intensa soou distante, mas audível. “Ele” me entregou um copo cheio de um líquido vermelho... Um copo cheio de sangue. Minhas mãos agarraram o objeto trêmulas e esperançosas, derramando parte de seu conteúdo sobre o meu colo.

 

Eu ingeri aquele sangue com ansiedade. O sabor ferroso e a textura espessa foram logo reconhecidos por meu monstro que se saciou com goles ritmados.

 

O copo seco foi abandonado ao meu lado. Eu ofegava por ter bebido tão rapidamente sem ao menos respirar. Então, levantei meu rosto e encarei a expressão séria “Dele” que assistiu ao espetáculo de meu monstro. Eu estava envergonhada quando seus orbes negros refletiram a cor vermelha de meus olhos dissipar-se, substituída pelo tom azul escuro comum.

 

- Desculpe... – Exclamei tão baixo que não tive certeza se “Ele” ouviu.

 

- É sua natureza, criança. Não se envergonhe disto. – “Ele” respondeu calmamente antes de abandonar a sala e deixar-me só com o eco profundo de suas palavras...

 

“Não se envergonhe disto.”

 

Os dias que se seguiram foram repletos de experiências intrigantes que “Ele” me fazia passar. Eu não apreciava o sentimento de ser estudada... Mas, era um preço pequeno demais por sua presença e zelo.

 

Quando completei dez anos, sob a luz do sol poente, “Ele” questionou com sua costumeira voz aveludada:

 

- Para onde espera ir quando morrer, criança?

 

Eu fitei sua face inexpressível com o olhar interrogativo. Eu já havia pensado muito sobre a existência de um outro mundo... Além da morte. Não precisei hesitar para respondê-lo melancolicamente:

 

- Se houver inferno, Mestre, é para lá que irei.

 

“Ele” suspirou pesadamente antes de afirmar com sabedoria:

 

- Criança, o que seria dos anjos sem os demônios? – “Ele” pausou em um suspense que adorava fazer. – Você acha justo um demônio viver no inferno quando sem ele os anjos seriam inúteis?

 

Aquelas palavras me acompanharam durante anos de minha existência. Eu não soube articular uma resposta adequada àquele questionamento, mas certamente, eu sentia, anos mais tarde eu poderia dizer-lhe convicta um sonoro: “Não”.

 

Meu Mestre me acompanhava durante a maior parte de seu tempo. “Ele” me alimentava regularmente com sangue, da mesma forma que fez no primeiro dia em que minha sede denunciou meu monstro.

 

Em relação a minha alimentação, apenas uma coisa me intrigava: o sangue ao qual me era dado pertencia à mesma origem. Eu sentia seu sabor inalterável diariamente, mas não me atrevia em perguntar quem era seu dono.

 

Independentemente de sua origem, eu agradecia mentalmente por tê-lo disponível. Especialmente ao despertar de outro terror noturno. Eu temia que meu pesadelo fosse alguma premonição maldita... Algum futuro definido.

 

E eu precisava desesperadamente controlar meus atos oníricos. Eu precisava não abrir aquela porta!

 

Meu Mestre era, em muitos sentidos, diferente de qualquer pessoa ou ser que eu conhecera. E eu confiava “Nele” como não confiaria em mais ninguém.

 

Não me importava em depositar minha vida inteiramente em suas mãos, mesmo ao desconhecer seu nome. “Ele” não me dissera... E também não questionara o meu.

 

Éramos ambos desconhecidos um ao outro...

 

Mas perfeitamente unidos.

 

Até que “Ela” apareceu.

 

~O

Eu não me acostumei ao site. Penso em excluir meus textos, por não reconhecer como torná-lo realmente bom.
Imagino não estar agradando, pois acho que ninguém o lê.
Obrigada a quem leu, se houver, rs.



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Última atualização em Qua, 10 de Março de 2010 07:31
 
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