| Romeu - Parte 1 |
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| Literatura - Contos - Ficção |
Escrito por: natandias![]() |
Qui, 04 de Março de 2010 17:21 |
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É estranho registrar os fatos que me conduziram a conhecer o senhor Romeu. A simples lembrança daquele crime e de todas as outras histórias que se seguiram após o encontro é praticamente indescritível, mas vou tentar organizá-las de acordo com minha memória e com as notas escritas à época dos acontecimentos. Cabe a quem quer que esteja lendo decidir a veracidade de minhas informações e dos relatos daqueles que me ajudaram durante este período sombrio. Este registro também tem como finalidade chegar às mãos de Jéssica, minha amada esposa. Rezo para que ela entenda e que me perdôe. - 12 de Junho de 1994 - Rio de Janeiro A cena do crime já estava repleta de pessoas quando eu cheguei numa manhã ensolarada de Junho. O Inverno se aproximava, mas o clima carioca não dava indícios de que ia amenizar. Contudo, não é sobre o clima que eu venho relatar neste diário. O que passo a escrever neste registro é apenas um resumo dos casos impressionantes que me levaram a encruzilhada do destino. O número 31 da rua Álvaro Alvim é onde começa a história. Um crime bárbaro que abalou os cariocas no Outono de 1994 e que teve uma resolução impressionante e inverossímil. O crime: Catorze pessoas mortas dentro do apartamento 1702 em um prédio comercial do Centro do Rio de Janeiro. Já seria um crime hediondo se não fossem as estranhas idiossincrasias concernentes ao episódio. Dez mulheres e quatro homens estavam mortos no mesmo cômodo do apartamento 1702. Esta era a parte fácil da observação logo que cheguei. Porém os detalhes que me foram passados rapidamente pelo Sargento Oliveira da Polícia Militar e pelo Agente Magno da Polícia Civil eram surpreendentes. O apartamento 1702 estava trancado por dentro. Isso obviamente caracterizaria um cenário de assassinato seguido de suicídio. Quisera Deus que fosse tão simples assim. - Detetive Carlos Fernandes, este é o Agente Farias do ICCE. Ele explicará essa porcaria de situação que temos aqui. - Disse o Sargento Oliveira, parecendo muito impaciente ao me apresentar a um dos peritos que estava no local. - Oito mulheres com cortes retos, aparentemente provocados por uma faca ou outro material cortante, na parte frontal do pescoço. - Começou Farias, sem rodeios, caminhando ao meu lado pelo apartamento enquanto falava de modo abrangente. Era um homem baixo, de pele clara e com cabelos que iam rareando conforme a idade avançava. Oliveira era atlético e tinha um bigode imenso e muito bem aparado. O Agente Magno era negro, tinha um queixo bem protuberante e também com um porte atlético. Era o mais alto dos três que me acompanhavam enquanto o agente Farias continuava sua explanação: - Duas mulheres e um homem têm cortes semelhantes nos dois pulsos e os outros três homens possuem cortes no abdome. Aparentemente a hemorragia era o sinal em comum e o motivo do óbito, exceto por um detalhe que logo observamos: Não havia marcas de sangue em nenhum lugar. - Farias estava certo. O carpete envelhecido estava sujo de poeira e mofo, mas não de sangue. Não havia nada nas paredes, móveis, e nem nas roupas das vítimas. Um detalhe era que todos estavam sem blusas e estas estavam amontoadas num canto perto da porta do banheiro que ficava no cômodo principal. Em outros dois cômodos a polícia não encontrou nada. Na cozinha, as facas e garfos estavam limpos, mas mesmo assim os legistas recolheram todos para verificação. As janelas eram de correr, com vidros retangulares para entrada da luz, mas também não continham sinais de arrombamentos ou marcas de sangue. Farias me informou que uma delas estava apenas encostada. Ao abrir, notei que o prédio ficava ao lado de outro prédio, ambos divididos por uma rua estreita, mas longe o suficiente para qualquer tentativa de pulo. O terraço do prédio vizinho ficava no décimo nono andar do prédio 31. Era impossível fugir por ali. Depois que tudo foi devidamente catalogado, fotografado e registrado pelos legistas e agentes, os corpos foram retirados do apartamento e levados para o Instituto Médico Legal, em São Cristóvão, mas o local do crime permaneceu isolado. Fiquei mais algumas horas estudando o lugar: Tirei mais fotos, recolhi algumas amostras do carpete e procurei por algumas digitais nos móveis de madeira e nas cadeiras de ferro. As amostras foram enviadas para o Instituto de Criminalística Carlos Éboli enquanto os agentes analisavam as fotografias e começavam a colher depoimentos. Ou pelo menos tentar. Provavelmente o crime aconteceu durante a madrugada, já que nenhuma testemunha foi encontrada para falar sobre o caso. O prédio não possuía câmeras de segurança e o porteiro havia saído às sete da noite no sábado (11 de Junho), já que o prédio permanecia fechado aos domingos. Quanto a mim, decidi investigar as vítimas. As vítimas não possuíam nenhum grau de parentesco; não trabalhavam juntas, algumas sequer trabalhavam, e nem possuíam amigos em comum. Apenas um fato unia elas: Todas moravam sozinhas. Sete das mulheres possuíam namorados ou noivos, mas moravam sozinhas, e dois homens estavam na mesma situação. Os parentes provavelmente estavam acabando de serem notificados para reconhecimento dos corpos no IML.
- 17 de Junho Hoje decidi comer feijoada no almoço enquanto pensava no caso do 1702. Péssima idéia. E o caso do apartamento 1702 ficava cada vez mais impressionante. Ao chegar no início da tarde ao ICCE encontrei o agente Farias e este me deu as novidades que perturbaram ainda mais nossas mentes. - Os relatórios indicam que todos morreram devido à hemorragia provocada pelos cortes. Todos tiveram perda aguda de sangue. - Então não devem ter morrido no local. - disse eu, pois já havia pensado nisso durante a semana - Foram assassinados em algum lugar e depois transferidos para o local em que os encontramos. - Você sabe que não é tão simples assim! - disse Farias limpando o suor da testa com um lenço sujo enquanto falava com a voz grossa - Os exames comprovaram que os corpos não sofreram lesões. Não há marcas, luxações, hematomas. Nada que sugira luta ou agressão. Não há também nenhuma marca que indique que foram carregados enquanto estavam mortos. E você sabe que se isso acontecesse, não haveria como o apartamento estar fechado por dentro. A não ser que o assassino tivesse pulado pela janela. Eu sabia que Farias estava certo. Eles haviam morrido no 1702, mas os indícios davam a entender que os corpos chegaram lá sem vida. Uma idéia me ocorreu e logo eu a coloquei em prática assim que me despedi do agente Farias. Fui ao número 31 da Álvaro Alvim retomar minhas investigações. Meu pensamento era de que o assassino pudesse ter se pendurado pela janela apoiando-se no parapeito e ido para algum apartamento vizinho ao 1702. Em minha imaginação, visualizei até mesmo ele indo para algum apartamento no andar de baixo ou de cima, escalando o prédio pelo lado de fora. A razão, porém, era contrária a esta suposição, mas em todo o caso eu precisava investigar.
- 18 de Junho A procura nos apartamentos vizinhos ao 1702 se mostrou tão infrutífera quanto poderia ser. Não havia sinais ou marcas em nenhum apartamento, seja no mesmo andar ou nos andares acima ou abaixo do local do crime. O agente Magno me ajudou e juntos concordamos em procurar dois andares para cima ou para baixo, supondo que o criminoso não escalaria mais do que isso para fugir. Todas as salas estavam limpas e sem nenhum vestígio do incidente. A imprensa havia iniciado sua cobertura e divulgava algumas informações que haviam vazado, como o fato do apartamento estar fechado por dentro e não haver vestígios de sangue ao redor das vítimas. Um pseudo-estudioso no assunto me irritou ao pronunciar publicamente que os agentes envolvidos nas investigações não tinham preparo para solucionar um caso ímpar como aquele. Segundo o comentarista, a polícia precisava de ajuda internacional para o caso. Novos relatórios chegavam do ICCE e do IML, confundindo ainda mais nossas suposições. Não havia marcas de lesões, como Farias havia me informado, mas isso também revelava que as vítimas haviam provavelmente sangrado até a morte. Porém nós sabíamos que mesmo os que possuíam cortes no abdome poderiam ter sobrevivido se tivessem tentado. Ao que parece, o assassino de alguma forma prendeu as vítimas, impedindo-as de pedir socorro, enquanto elas sangravam, mas até mesmo isso era incompatível, pois se todos morreram juntos, um poderia ter ajudado o outro a tentar, de alguma forma, estancar o sangramento. Se estiveram presas por alguma corda ou qualquer outro material, teriam lutado e deixado marcas na pele. Se separados, teriam pressionado o local do ferimento como sempre fazemos ao nos machucar em alguma coisa. Nada batia. Não havia sinais de que as vítimas haviam lutado contra a morte. Ao que tudo indicava, elas foram feridas e começaram a sangrar. Apenas isso. E ao que parecia, o sangue havia evaporado.
- 20 de Junho - Trecho retirado do Jornal do Brasil "Uma história impressionante teve seu final revelado hoje" Por Celso Caruso "A insegurança e o descaso com a sociedade atingiu seu ponto mais alto na manhã do dia 12 de Junho, quando catorze pessoas - dez mulheres e quatro homens - foram encontrados mortos em um prédio comercial no centro do Rio. Os peritos lutaram contra uma série de indícios que apontavam para um caso extremamente complicado e que prometia ser insolúvel do ponto de vista lógico. Porém, quando tudo parecia escuro e sombrio, uma denúncia anônima levou os policiais a uma casa na zona Oeste da cidade, onde dentro de um condomínio de luxo, três jovens foram presos em flagrante. Na casa deles, duas facas foram apreendidas, as quais os peritos supõem ser as armas do crime. Três camisas manchadas de sangue foram encontradas e enviadas para o Instituto de Criminalística Carlos Éboli, mas ao que tudo indica o sangue que manchava as camisas eram das vítimas do quarto 1702. Após serem presos os jovens confessaram o crime, mas não disseram o porquê de praticarem tamanho ato de selvageria e maldade. O fato é que parece que o caso insolúvel está para ser encerrado graças ao telefonema de algum cidadão. A polícia agradece e pede que a população continue utilizando esta ferramenta que tem ajudado a solucionar casos ao redor da cidade. Mais detalhes nas páginas 14 e 15."
- 21 de Junho - Carta do senhor Romeu destinada ao detetive Carlos Fernandes Neto
Saudações detetive, Você sabe tanto quanto eu que a história divulgada na imprensa não é verdadeira. Os legistas estão surpresos e os agentes estão assoberbados, mas nenhum deles se perguntou o mais importante: 'Por que três jovens cometeriam um crime com tanta astúcia e deixariam provas tão imbecis em seu próprio apartamento?' Saiba, detetive, que eu tenho a resposta. Esse crime precisa ser solucionado da maneira correta e eu tenho a chave para que você e mais quatro pessoas o resolvam. É do meu interesse que os verdadeiros criminosos sejam neutralizados, embora não possa revelar o fato por meio de uma carta ordinária como essa. Portanto, se o senhor estiver interessado em saber a verdade, sugiro que venha sozinho até minha casa, o endereço está em anexo a esta carta, no dia 29 de Junho às 19 horas. Seus quatro companheiros estarão esperando por você, eu suponho, e juntos vocês cinco poderão fazer justiça como ela deveria ter sido feita. Peço apenas que o senhor mantenha esta carta em sigilo, pois caso não o faça, considere minha proposta cancelada. Estarei esperando pelo senhor julgando que sua sede de conhecimento e curiosidade investigativa concernentes a um detetive fará com que o senhor tome a decisão certa. Pergunto-me apenas se tem a coragem necessária para desvendar este mistério. Com meus cumprimentos, Romeu Até aquele momento eu não sabia quem era Romeu e nem o que significava aquela carta, mas o fato era que eu concordava com ele, salvo à psicologia reversa barata utilizada no final. O desfecho do crime no dia anterior me provocou náuseas, pois eu sabia que aqueles três jovens não poderiam ter cometido aquele crime. Não digo isso pelo fato deles terem rostos bonitos, ou por suas mães gritarem na televisão que seus filhos eram inocentes. Digo pelo sentimento que todo detetive compartilha após alguns anos na profissão. O sentimento; a intuição; o instinto; aquela pontada no coração que informa quando você está no caminho certo ou no caminho errado de uma resolução. E esse sentimento me indicava que os três eram inocentes. Farias concordava comigo, mas todos os outros estavam tão extasiados com a revelação que se negavam a aceitar qualquer outra sugestão. Romeu não precisava ter solicitado sigilo, pois ninguém queria aceitar o fato de que aqueles três poderiam não ser os criminosos. - Os indícios comprovam que eles são. Encontraram sangue nas blusas. Sangue das vítimas, Carlos! - Disse Magno quando eu contei sobre minha intuição, durante a entrevista coletiva do secretário de segurança às emissoras de tv e rádio no Quartel da Polícia Militar da rua Evaristo da Veiga. Outros agentes faziam coro com ele enquanto escutavam as declarações do secretário que aplaudia as ações do departamento de polícia da cidade. Eu estava realmente sozinho, e a carta de Romeu era meu único consolo. Alguém compartilhava de minhas suposições e se esse Romeu estivesse falando a verdade, ele tinha informações sobre o real assassino.
E em meu íntimo eu sabia: Romeu falava a verdade. O crime não estava solucionado. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qui, 04 de Março de 2010 18:00 |



