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Literatura - Contos - Romance
Escrito por: Cilas_Medi
Cilas_Medi

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Ter, 12 de Janeiro de 2010 13:49

É na roda de samba que vamos ver o estilo chegar, batucada sagrada na madrugada que está para chegar, eu vou saber se você me ama de verdade, vendo quando chega e me beija com vontade.

- Raimundo, venha almoçar.

- Quebrou o encanto, querida, estava terminando uma frase do samba que preciso levar para a escola. Agora perdi o rumo. Eu almoço depois.

- Eu leio e continuo.

- Dessa vez o samba vai sair sozinho.

- Sempre fizemos em parceria. Venha, almoço. Ele levantou-se da varanda, no alto do morro, casa bem construída e de alvenaria, por terminar. O que tem mais na consciência é o respeito pela escola de samba que é um dos fundadores e seu principal e atuante compositor. Ela o acompanha. Ele chegou e sentou-se.

- E as mãos? Ele levantou-se, aproveitou e lavou o rosto, água nos cabelos e um belo penteado. Tem que aproveitar enquanto existem. Não será careca, o pai e o avô não foram. Do lado da mãe, um pouco só, mas para cair tudo isso de uma vez, assim pode ficar careca, senão, vai ter cabelo de se fartar para lavar e pentear. Sentou-se. Arroz, feijão, um belo do bife de coxão mole, batido e esparramado, frito e acebolado como gosta. A cebola sem muitas partes pretas e com um bom caldo de sal e sangue. Em cima do arroz, o feijão fica de lado. Gosta de separar os sabores. Ela serviu e deixou a salada, alface, tomate, brócolis para lhe dar sustento necessário com o trabalho de estivador. E poeta nas horas vagas, forçadas ou não. Quando tem serviço está disposto. Quando não a disposição é para o samba canção. Um dia faz sucesso, e se não fizer o prazer é o mesmo. Na comunidade todos cantam o que escreve e a mulher faz a música. Outras parcerias, mas ela sempre lhe diz as rimas corretas.

- Então, vai me deixar ver?

- Não, dessa vez faço sozinho.

- E posso saber por que, está bom assim, mais uma colher.

- Está bom, obrigado. Está uma papa esse arroz.

- Não é assim que gosta?

- É, com o olhar pela janela, para a imensidão à sua frente e o mar bem lá longe, tirando o seu pensamento da letra. Mas ele volta, a sua inspiração está ali do seu lado, olhando com carinho para a sua mulata. E que mulata, apreciada e querida. Até demais. Eles olham muito para ela. Nessa hora somente é que não gosta de estar amasiado com ela. Vou casar um dia que o samba fizer sucesso. Não importa, ela está aqui, pegando na sua mão esquerda quando se sentou para acompanhar.

- O que foi agora, o que quer? Água vou pegar, ameaçando levantar e ele segurando com mais atenção e ela parou. O que você tem?

- Nada, nada!

- Nada, nada, com essa cara de apaixonado?

- Percebeu ótimo. Olhou para a atenção dela para as garfadas dele e ela fazendo o mesmo, dizendo que ficou um pouco sem sal. Ele nem comentou de volta. Estava no final dos versos e cantarolava a canção. Ela acompanhou, quase que um mesmo pensamento e na mesma ordem de valores, porque quando terminaram de almoçar o samba estava pronto. Ele na letra e ela na música.

- Não escutei direito o que cantou!

- É segredo, mas a música está certíssima.

- Eu fiz para um apaixonado. Tem ritmo.

- Eu concordo. A letra eu vou escrever e entrego para você mais tarde.

- Vou me surpreender?

- Com certeza. Uma mulata como você vai ficar muito surpresa.

- Está apaixonado por ela, ou foi só força de expressão?

- Estou mais do que apaixonado, encantado!

- Com o que, conheço você, está começando a me intrigar com essa conversa. O almoço estava bom?

- Como tudo o que você faz, estava ótimo. Tomou um gole de água que ela pegou na geladeira e descansou o copo. Bateu na mesa para pegar o ritmo novamente e foi para a varanda, encostando o prato na pia. O pensamento longe e o samba saindo, aos borbotões. Quando terminou de escrever, entregou. Ela leu. Sim, está apaixonado. Muito.

- Está mesmo apaixonado. Beijo de madrugada, lembrar o passar da cabrocha emoldurada. Dessa vez se suplantou. E posso saber quem é ela?

- A minha musa inspiradora. Você não a conhece.

- Vive de madrugada, não devo conhecer. É quando ajuda nos navios. Não vá me dizer que ela é do cais, se apaixonou por outra, do cais? Eu não acredito. Ele a abraçou com carinho, ela procurou negacear e ele apertou com mais força.

- Vive de madrugada, sabe que estou no cais. Tem um ritmo impressionante, é mulata, charmosa, cheirosa e gostosa. Chocolate do papai. Ela percebeu, porque citou uma frase que conhecia em outra música que a presenteou como sua cabrocha escandalosa e mimosa. Ele e suas frases, sempre preocupado com suas curvas. E o ritmo agora, de abraços e beijos. Controlados, porque acabaram de almoçar. E as crianças vão chegar da escola. Para almoçar. Ele ficou aguardando lavar os pratos e ajudou. As crianças chegaram e o samba aconteceu com eles também. Os dois meninos e as duas meninas. Uma expressão do amor deles. E todos com ritmo no samba. Muito bons. Eles na bateria e as meninas já com a vontade, porem sem idade, de participar como porta bandeiras. Uma família do samba. Com ritmo de amor no coração.



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Última atualização em Sex, 15 de Janeiro de 2010 09:18
 
Comentários (5)
  • Niki_
    avatar
    Sabe vou lhe contar algo, não gosto de samba, mas teu texto tá tão lindo que apreciei por demais!!Parabéns, estrelas, todas elas. :)
  • Cilas_Medi
    avatar
    É assim comigo. Não sei sambar, mas aprecio quem o faz muito bem, como as mulatas. Sabe, Niki, não consigo ficar olhando para os rapazes. Só para as mulatas e porta bandeiras. Abraços e um beijo pela sua gentileza.
  • Cerson
    avatar
    Excelente, Cilas. Sou como a colega Niki; não tenho paixão por samba, mas a forma com que foi tratado no conto ficou legal. Abraços
  • Cilas_Medi
    avatar
    Bom, Cerson, já expliquei para a Niki, sabe como são as mulatas, aparecem bem. Até para quem não gosta de samba. E o amor dele por ela, joga no "chocolate do papai". Apaixonado total! Abração.
  • master22
    avatar
    Lindo texto Parabéns
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