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A Matéria-prima e Ferramenta do escritor Enviar por e-mail
Colunas - O Fazer Literatura
Escrito por: HiagoRRdeQueiros
HiagoRRdeQueiros

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Dom, 03 de Maio de 2009 22:58
Tive muitos professores: Nietzsche, Schopenhauer, Kafka, Sarte, Confúcio, Maiakóvski, Balzac, Graciliano, Dostoiévski, Tolstói,  Proust e tantos outros que você já deve ter lido na minha biografia... mas nem todos foram os que me ajudaram, dando-me o caminho, mas sim: mostrando o que "eu não deveria escrever".

Nietzsche: não prose sendo o dono da razão e do conhecimento.

Kafka: não pregue a desesperança na narratória, pois isso monotonizará a resolução do leitor.

Schopenhauer: não defenda apenas um lado da existência, pois, ao escrever, estamos reproduzindo a vida: que nunca é uma só e de uma só maneira de ser e de se ver.

Sartre: não apoie filosofia na ficção, mas sim: a conclusão da história nesta sua filosofia, pois senão seus personagens serão irreais: criaturas complexas demais para exisistirem dentro do leitor.

Confúcio: não dê voltas para explicar o que você quer dizer com suas histórias: diga pelas personagens, ou pelo narrador... não verse em tom de superioridade de alma: o leitor é igual a você.

Maikóvski: não metaforize na epicidade, apenas na narração, ou seja: não torne seus personagens sábios na prática: narre-os como sábios.

Graciliano: não se ponha do lado de quem sofre, somente, pois quem sofre hoje, amanhã fará sofrer: somos todos humanos, e as personagens nada mais têm do que a humanidade (com suas virtudes e misérias) para exisistirem na história.

Dostoiévski: não misture política com literatura e nem pessimismo com desesperança.

Tolstói: descreva os personagens de acordo com suas características, medidas em referências e não de acordo com suas impressões: ninguém é muito feio, muito gordo... magro, baixo, ruim ou cansado. Todos são tão altos, magros, bonitos, feios e gordos como alguém ou alguma coisa.

Proust: não lambuse a narrativa com a sua opinião sobre a vida: exprima esta opinião na existência das personagens: o narrador narra, e não conceitua. Narrativa não é Ensaio/Compêndio.

Eu, pensando nessas figuronas, que tanto me ensinaram, primeiro cheguei à conclusão de que o que mais ensina um escritor a se melhorar na escrita é sua própria capacidade de analisar o que tanto se lê, pois ler, lendo apenas por distração ou por degustação da obra, não nos cabe, nós: os escritores, mas... eu falava mesmo era de ferramenta e matéria-prima, não é?

Falei sobre este site com um escritor mais famoso do que eu, ontem, e quase caí para trás com sua opinião sobre "os amadores" (palavras dele)... e vendo-o já mudar de assunto, ao perceber que me constrangira (e até irritara), por, em sua concepção, eu ser "escritor profissional" e ainda estar escrevendo artigos para amadores... foi então que trocou-se o assunto e o que mais me chocou foi sobre o que ele falou para mudar  nossa conversa: disse-me que ministrará uma oficina literária, e, inclusive, ia me convidar para dar algumas dicas para os aluninhos desta oficina.

Nada contra e tudo a favor das oficinas literárias, mas, nesta, deste escritor famoso (ele publica pela editora Record), haverá o ensinamento sobre a arquitetura da palavra. Pode?

Este meu colega é famoso por escrever contos que tem uma sonoridade e uma ritmicidade quase de poesia... mas suas narrativa e sua prosa são protestantes e tal. (ele ganhou um Jabuti)... e veja que veio falar para mim, me convidando para ensinar um monte de gente chique a lidar com as palavras.

Agora sim entremos no assunto da Coluna, com sua Tese, Antítese e Opinião:

Afinal de contas: o escritor é o"arquiteto da palavra", ou o "arquiteto do Ser"?

Tese: "Com minhas palavras, eu faço um rio, faço um mar... faço o frio e faço você chorar, e isso sem escrever: chore, sinta frio... ou: agora veja um rio, ou veja um mar. O escritor trabalha a palavra, essa é sua matéria-prima: a palavra escrita." [Carl Mustig, escritor americano]

Antítese: "Ainda sem escrever palavra alguma, eu seria escritor" [Maximilian Cals, escritor brasileiro]

Opinião: Peço que você imagine um pedaço de mármore, um cubo: um bloco de 2m cúbicos. Depois, ao lado deste cubo, imagine uma marreta e um ponteiro. Agora, fixe bem o seu olhar nesta pedra e veja o seu rosto moldado nela, assim, pegue o ponteiro e a marreta e neste bloco vá formando o que você imaginou nele ver: seu rosto.

Certamente, o que será depois, quando você moldar o bloco, não foi o mesmo que o imaginado.

Troque agora o bloco de mármore por uma determinada história ou poesia, e troque a marreta pela gramática e o ponteiro pela ortografia.

Releia o primeiro parágrafo da Opinião, onde começo pedindo para que você imagine. Eu peço isso com palavras, enquanto você vai imaginando. Eu escrevi (ou moldei o mármore) e você o viu: você viu o que eu moldei. Assim é o trabalho do escritor, e a palavra escrita é somente a ferramenta com que este conta suas histórias, expõe suas idéias e exprime seus sentimentos: faz arte.

Quem acredita, como este meu amigo famoso, que a palavra é o fim, ou: a matéria-prima do escritor, é um autor vazio de espírito, que, assim como os concretistas ou os simbolistas, acabará saindo do chão e deixando lá o leitor.

A arte que se expressa nas letras não é a arte que usa da letra para se expressar. Simples: a letra, ou: a palavra em si é gráfica, oratória e explicativa, ou seja: transitiva, dependente de algo, de algum objeto, para explicar... e quando há exageros na palavra, ou quando suprime-se totalmente este objeto, tudo fica sem nexo, ou por conta só da grafia e da oralidade, como se olhássemos um poema na folha, e víssemo-no como ao observar um quadro na parece... ou se ao escutar um declamador, assistíssemos somente sua desenvoltura e o som de suas palavras... mas: o que a poesia e o declamador querem dizer, isso não importa? Não deveria ser o que realmente deve importar?

Ora! Arquitetos das palavras são os gramáticos, os sintáxicos, o semânticos e lexicógrafos!... nós, os escritores, contamos histórias, versamos e apresentamos idéias usando palavras... escritas.

Pouca gente se pergunta, ou sabe disso...  e talvez, por isso, que esse meu amigo é mais famoso, e está mais perdido do que eu.



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Última atualização em Seg, 11 de Maio de 2009 11:07
 
Comentários (2)
  • LiS  - As ferramentas
    Bom dia Hiago! Tudo bem?Espero que sim. :) Peço que imagine a folhinha de uma planta qualquer. Ela existe, e insiste, mas as folhas mais velhas precisam de poda. Seu texto foi isso. Metaforicamente a tesoura. Abrço, LiSPareto
  • JORRO
    Pois é meu amigo Quanto mais se aprende, menos se sabe abraços Jorge
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